Review: iHunt the RPG – Olivia Hill e Filamena Young

Todos gostaríamos de imaginar que em um mundo com monstros nós seríamos bravos e destemidos caçadores. Agora, pense: o que realmente levaria uma pessoa como eu ou você arriscar a vida(!) para matar uma criatura que possui habilidades e capacidades sobrenaturais?

Isso aí, desespero. Fome. Contas. Falta de perspectiva na vida. Tudo em troca de dinheiro para sobreviver.

A economia tá uma merda, os direitos trabalhistas estão sendo reduzidos e/ou eliminados e os empregos estão cada vez mais escassos. Por que não “uberizar” o serviço de caçadores de monstros através de um aplicativo que os conecta com quem queira pagar pelo serviço? Nasce o iHunt. 

“Ele nunca mais vai ter que ir pra escola com roupas esburacadas”

A Origem

Baseado na série de romances de mesmo nome, o RPG de iHunt começou com as aventuras de Lana, uma caçadora que precisa pagar as contas do mês e dos seus vícios. Criação de Olivia Hill, conhecida na indústria do RPG por escrever para títulos como Chronicles of Darkness, Vampire: the Requiem, Dark Eras e ter desenvolvido Vampire: the Masquerade V20 Dark Ages e Hurt Locker, entre muitos outros, além do seu próprio selo: Machine Age Productions. Sério, eu preencheria uma página inteira só com a produção rpgística dela. 

Tanto os romances quanto a sua versão em jogo são escritos em um tom de conversa, como se fosse realmente um papo de bar e não um manual de instruções entediante. Ambos apresentam uma crítica nada velada à nossa sociedade contemporânea e o fenômeno chamado de “capitalismo tardio” que força cada vez mais pessoas à uma vida de bicos e miséria.

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“1 da manhã e você trabalha às 6? Cinco horas pra matar”

Como Funciona?

Utilizando o chassi de Fate com pequenas modificações, o sistema é perfeito tanto para RPGistas veteranos quanto quem nunca jogou Fate – disponível gratuitamente aqui – ou qualquer outro RPG. Resumidamente, para toda ação jogam-se 4 dados que podem ter resultados de -1, 0 e +1 cada. Some ao resultado dos dados sua graduação na habilidade utilizada e compare o número final com uma tabela de dificuldades. Fate ainda permite o uso de “aspectos”, características do seu personagem e da cena que podem tanto fornecer um bônus ou uma penalidade na ação.

Além disso, o livro te permite jogar com quatro “arquétipos” (Kinks) de caçadores. Cada um possui uma metodologia própria para a caçada na forma de Stunts, habilidades que podem ser invocadas pelo jogador. Os Kinks são: 

  • Knight. Elas são as mais físicamente ativas: soldados, atletas, delinquentes juvenis…
  • Evileena. Eles se valem de conhecimento: bibliotecários, ocultistas, nerds em geral.
  • Phooey. São as ‘geeks’. Conhecimento tecnológico e de engenharia são os recursos desse kink.
  • Os 66. São “gente que conhece gente”. Seu maior recurso são seus contatos.

Cada história em iHunt revolve em torno de um bico, um contrato. Os caçadores escolhem os monstros que querem caçar conforme um sistema de estrelas que vão de 1 a 5, indicando o nível de perigo e o pagamento pelo trampo. Aliás, um dos dilemas nesse RPG é: “se preparar e garantir uma vantagem enorme contra os monstros” – afinal, qualquer criatura sobrenatural é por natureza muito mais forte que qualquer caçador – e aí correr o risco de outro caçador matá-lo antes de você e levar a grana; ou “caçar rapidamente o monstro com pouco ou nenhum preparo/vantagem” e aí correr um risco de vida maior e desnecessário.

O livro ainda fornece um “gerador de bicos” com ideias para você montar suas sessões – ou escolher tudo aleatoriamente – indicando desde o nível da ameaça e o local até possíveis reviravoltas no trampo: o contratante é um monstro pior que o alvo; o alvo tá morto; o monstro na verdade é um cara maneiro de verdade, etc. Por fim, ainda há sugestões de desfechos, quase todos oferecendo mais problemas, porque a vida não espera pra acontecer. 

Ah, sim! O cliente que contratou os serviços do caçador também podem, ao final do serviço, dar uma nota de 1 a 5 estrelas para os caçadores, o que impacta diretamente no quanto eles vão receber pelo serviço. Sim, o cliente pode reduzir arbitrariamente o quanto você vai receber, sem choro nem vela.

O sistema de experiência/progressão de personagens é outro destaque: você tira selfies. Afinal, nada mais icônico da nossa cultura atual do que selfies! Existem 3 tipos de selfie, cada uma permitindo modificar sua ficha de personagem de uma forma condizente conforme o fim de uma sessão, arco ou campanha, similar às Milestones/Marcos de Fate.

Temos ainda uma seção do livro dedicada exclusivamente para melhor explicar aos leitores quais os tipos de problemas e dificuldades que pessoas pobres enfrentam: dos gastos maiores por comprar produtos de qualidade inferior (e que duram menos) aos abusos sofridos por policiais, recusa de crédito em bancos, falta de alimentação… A parte triste é que nada disso é realmente ficção. São estratégias reais usadas por pessoas reais e que, por acaso, também podem ser usadas pelos seus personagens.

“Ela nunca mais vai ter que ouvir: a mamãe foi despejada”

Estiloso e Diverso

A arte de iHunt é deslumbrante. Misturando desenhos digitais com fotografias digitalmente modificadas, as páginas do jogo transmitem de forma clara o zeitgeist do que é a ‘cultura millenial’, um aspecto importante da estética de iHunt, afinal, foram os millenials que arruinaram tudo, de acordo com a mídia.

Uma das coisas que mais chamam a atenção é a diversidade. Folheando as páginas podemos – com frequência – encontrar pessoas negras, asiáticas, gordas, latinas… iHunt não é apenas inclusivo, ele é radicalmente inclusivo.

Veredito

iHunt é um jogo de regras bem simples mas uma complexidade dramática enorme. É um retrato sem firulas dos problemas do capitalismo liberal na nossa sociedade que força cada vez mais pessoas à informalidade. A aceitar subempregos e bicos para não passar fome. É um jogo que conversa diretamente com as experiências de vida das classes mais pobres e das minorias que não são aceitas no mercado formal de trabalho por preconceito. 

Acima de tudo, iHunt não tem medo de mostrar sua opinião sobre o mundo de forma aberta e, por todos os motivos apresentados aqui, iHunt é um dos RPGs favoritos dos Cronistas das Trevas.

Veredito: ***** 5 Estrelas. Merece 100% da recompensa.

Tanto a versão digital quanto a versão física podem ser adquiridas aqui: https://ihunt.fun/

One Reply to “Review: iHunt the RPG – Olivia Hill e Filamena Young”

  1. Olha, me interessei muito. Será que há chances disso aparecer pelo BR, acho que a Secular ou Retropunk seriam uma boa casa brasileira para esse RPG.

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